Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

É um princípio, não um fim.

 

Escrevo aqui a propósito da notícia da Academia norte-americana de Artes e Ciências Cinematográficas que dá conta da lista de 9 pré-nomeados ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Ao contrário do que poderíamos desejar, José e Pilar não conseguiu chegar a esta recta final, ser pré-seleccionado e recebermos pela primeira vez uma nomeação ao Óscar. Não é por isto que a iniciativa “José e Pilar aos Óscares” deva ser considerada como inútil. Pelo contrário. O nosso objectivo não era o de directamente chegarmos às nomeações (embora implícito), mas sim o de, numa primeira instância, conseguirmos que a Comissão de Seleccção do Filme Português Candidato ao Prémio Anual para Melhor Filme em Língua Estrangeira (instaurado pelo ICA) seleccionasse “José e Pilar” como o candidato de Portugal. Esta selecção foi algo inédita, visto ser a primeira vez (a par do candidato alemão “Pina”) que um país seleccionou um documentário como seu representante junto da Academia. Foi também a primeira vez que o período que antecipou a selecção do candidato português se pontuou com tanto mediatismo nos media tradicionais assim como na blogosfera, gerando-se uma série de comentários opinativos (uns oportunos, outros nem tanto) acerca da eventual escolha de José e Pilar ou de outro filme.

 

Nunca saberemos se esta petição pesou ou não na escolha de José e Pilar, mas gostamos de pensar que sim. Mas acima de tudo, o mérito é do filme que gerou todo este carinho e confiança, claro. A petição José e Pilar aos Óscares teve todo um carácter simbólico. Reconhecemos que não foi necessariamente o número de assinantes que terá pesado (cerca de 2500 é um número de grande importância para nós, mas algo irrisório quando falamos em petições públicas), mas sim toda a importância que se deu a um filme português, algo raro quando se fala na decadência do cinema português e de um abandono significativo de espectadores de cinema português. Esta iniciativa conseguiu pôr Portugal a falar de cinema e cinema falado em Português e acredito que terá motivado muitos a assistirem ao filme nos cinemas ou a comprarem o DVD. Estreado em 2010, José e Pilar conseguiu ainda ser o quarto filme português mais visto em 2011 com 10.391 espectadores, conseguiu estar no top dos DVD mais comprados na FNAC (recebeu inclusive uma reedição especial há pouco tempo) e estrear em outros festivais, viajando um pouco por todo o mundo.

 

A candidatura de José e Pilar junto da Academia envolveu todo um processo de marketing nunca antes utilizado em Portugal. Se noutros anos se notou uma certa inércia da equipa dos filmes seleccionados, a equipa por detrás de José e Pilar moveu mundos e fundos, mesmo sem nenhum apoio financeiro, de forma a promover o seu filme lá fora: desde uma iniciativa apoiada pelo Arte Institute em Nova Iorque, a anúncios nas revistas Variety e The Hollywood Reporter, vários screenings para a imprensa especializada, membros da Academia norte-americana e espanhola, HFPA e público em geral, bem com uma série de outras importantes iniciativas que culminaram na exibição do filme no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs. Não chegou para uma nomeação ao Óscar e talvez possamos aprender com os nossos próprios erros no futuro (somos ainda inexperientes nesta área), mas abriu-se um precedente para o futuro e quem sabe para o próximo ano consigamos uma primeira nomeação ao Óscar.

 

Durante todo o processo de recolha de assinaturas para a petição José e Pilar aos Óscares surgiu também uma severa onda de críticas sobre o oportunismo desta iniciativa e várias outras acusações infundadas, assim como tentativas de boicote, das quais não pretendo falar aqui. Mas não deixa de ser curioso que, mesmo entre os mais duros críticos da iniciativa (muitos deles pretendiam que outro filme fosse o candidato português, algo perfeitamente compreensível), sempre existiu uma certa esperança que Portugal e José e Pilar conseguissem juntos a sua primeira nomeação. Estamos orgulhosos do que conseguimos e continuamos a acreditar nas potencialidades do filme a nível internacional (o filme conseguiu contudo uma pré-nomeação ao Óscar de Melhor Canção Original).

 

Numa fase final, não poderia deixar de agradecer especialmente a um amigo também ele grande mentor e apoiante desta iniciativa (mesmo que sempre nos bastidores), o incansável Diogo Figueira, bem como a todos os que assinaram e divulgaram esta petição. Um agradecimento também muito especial ao Miguel Gonçalves Mendes, realizador de José e Pilar, e à produtora Daniela Siragusa, por terem conseguido despertar em nós um apoio tão grande e comovente ao seu magnífico trabalho, bem como também à enérgica Pilar del Rio, que sempre nos apoiou. O carinho que tenho (e muitos de nós temos) pelo filme reflectiu toda uma potencialidade no cinema português e no seu público, que pode vir a ser usada em seu benefício no futuro. Acreditamos em José e Pilar e desejamos-lhe muito sucesso lá fora, assim como teve em Portugal, enquanto ansiamos por novos trabalhos desta brilhante equipa. Acima de tudo acreditamos no cinema português. Sim, ele está vivo. Isto é um princípio, não um fim. Haja imaginação.

 

Tiago Ramos

publicado por Petição às 17:33
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5 comentários:
De css a 24 de Janeiro de 2012 às 21:12
Muito obrigada Tiago, fiquei esclarecida.
De Tiago Ramos a 24 de Janeiro de 2012 às 21:21
Ainda bem. :) O problema de muita gente que li por aí a dizer mal, é que nem se deu ao trabalho de perceber o porquê.

De qualquer modo, o filme além de ser candidato a Melhor Filme Estrangeiro, inscreveu-se para Melhor Documentário (não chegou sequer à pre-lista também), Melhor Banda Sonora (foi considerada inelegível) e Melhor Canção Original (que conseguiu a proeza de ser pré-seleccionada!). É já uma vitória, dado até que apesar do pouco poder e influência que tínhamos abrimos um precedente de "campanha" para um filme português, coisa que nenhum outro tinha feito.
De css a 24 de Janeiro de 2012 às 21:27
Eu sou ao contrário: se não percebo porquê, calo-me e pergunto. E já andava à algum tempo para perguntar.

Confesso que estava convencida que o melhor filme estrangeiro era para a ficção de longa metragem. Aprendemos coisa novas todos os dias!

E concordo consigo relativamente à movimentação em torno de obra portuguesa. Aliás, acho que cada vez mais os portugueses começam a ver o cinema português (ficção e/ou documental) com outros olhos.

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Esta página surge associada a uma petição pública que pretende sensibilizar o Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) para a escolha do documentário “José e Pilar” como candidato português à categoria de Melhor Filme Estrangeiro, na edição dos Óscares de 2012. Este é um movimento independente, de fãs e admiradores do filme, que têm particular confiança e respeito pelo seu potencial, que se sente verdadeiramente comovido pela sua imensa força emocional, humanista, motivadora.

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